30 de Abril de 2009

ABSOLUTO / RELATIVO


Conheci hoje o sabor da relva
O rodopio da selva das frases feitas
Faço luto pelos discursos estéreis e ocos
Elevo-me para além de pios loucos
Sou ainda capaz de descer e subir esse degrau
De me sentar à luz e saborear
Palavras de canela e de cacau
Sou forte que nem eu
Mesmo nos braços de Morfeu
Até seus delírios são oniricamente fortes
Mais dados às certezas que às sortes
Espera-me uma mesa farta
Um sofá de pele de marta
Uma cozinha mais cheia que pouca
E uma inconsolada boca
Faço luto pela incompreensão
Quando se faz noite sem razão
Quando o Sol foge da minha vigia
Se não se faz dia
Faço luto se perco a mesa
Se viciam o baralho
Se me fazem beijar o soalho
Faço luto se não me deixam fazer luto
Se fazem do relativo absoluto
Ou da matéria um produto
Faço luto e não poemas
Mesmo sem razão aparente
De fazer luto e ser diferente

Foto: 000 - luis reininho (olhares.aeiou.pt)

29 de Abril de 2009

CALA-TE, POETA DA TRETA


Faz um favor a ti próprio e cala-te
Não vês e não sentes
Quão exaurido
Fazes timbrar essa voz no meu ouvido
Fecha a matraca da tua pena
Deixa as palavras descansar
Não tens espelhos para te mirar?
Julgas-te dono das flores, das caras e dos dias
E no entanto
Precisas de escrever outro tanto
Faz esse favor a ti próprio e cala-te
Deita-te ao luar e respira
Deixa que a traqueia se solte
E a voz te tolde
Faz o favor ao mundo de ficar calado
Deixa para quem pode esse triunfo alado
De ser poeta
De ser fidalgo escriba da treta
Cala-te ou fala
Fala antes de escrever
Mas vive antes de morrer

Foto: Deserto Quente - Raul Alexandre (olhares.aeiou.pt)

26 de Abril de 2009

UM BOM ACTOR

Eu já sabia que alguma batalha se agoirava contra o meu esqueleto
Tempo maldito e feroz que não tens por mim respeito
Nem por esta víscera que tenho dentro do peito
Desconfiei que podia passar ao lado da tua árvore
E esconder-me calado nos ramos, nas flores ou nos espinhos
Mas denunciaram-me os meus lábios
E mais o cantar de pequeninos nos ninhos
Seria apenas mais um actor figurante
Se não tivesses aberto o pano quando me via ao espelho
Ou ligasses esse holofote vermelho
Sabia que ia chegar o dia em que esta ânsia do estômago
Se transformaria em gestos desabridos de socorro
Em desesperaria pela manhã do dia
Em que não conseguiria tirar dos cabelos a melancolia
Desconfiei mas não liguei
Ao sabor térreo da fruta que comia
Ao sabor é à dor
Mas ainda já sabia
Que não conseguia
Ser um bom actor

24 de Abril de 2009

Conta-me essa Liberdade


De repente, da alma de um povo
Em vez de balas choveram cravos
E um povo novo...
E era Abril de um ano
E começava ali
O que nunca acaba


MÚSICAS DE SEMPRE (E depois do adeus - Paulo de Carvalho)

PELA LIBERDADE


23 de Abril de 2009

BREVEMENTE...

Brevemente nova Rubrica:

DIÁRIOS DE VIAGEM
(Itália: Florença, Roma e Veneza)
(África do Sul: Durban)

22 de Abril de 2009

INCOMÓDOS DO UMBIGO


Natural seria pensar que não é natural

Alguém se rir de si próprio

Que isso seria até impróprio

Se não fosse saudável e banal

Como natural é tentar fugir da sombra

Esconder também o Sol

Por os olhos e os ouvidos no rouxinol

E ter medo do monstro que nos assombra

Desagrada-me e incomoda

Não achar natural um nariz diferente

Ou mistério uma estrela cadente

Ou até como nasceu a roda

Dou por mim a perguntar a mim

Que é natural não pensar nada

Não querer sequer andar na moda

E ser normal pensar assim

Nem sei se tem a ver comigo

Se é apenas ou não espiritual

Estranhar e não ver de forma convencional

O buraco do umbigo

Foto - Priscila Tessarini - Piercing (olhares.aeiou.pt)

20 de Abril de 2009

HÁ TREVOS MURCHOS NOS CAMPOS


Talvez ingenuidade minha, quiçá
Mas há pessoas que pensam que os poetas
São perfeitos no escrever e loucos no pensar
Que colhem trevos de quatro folhas em cada poema
Que escrevem e pensar palavras perfeitas em linhas direitas
Que despenteiam os cabelos a propósito
Para disfarçar misteriosas maleitas
Mas, talvez ingenuidade minha
Ou caloirice nas palavras que deito
Há trevos murchos nos campos
Palavras piores que o meu retrato
E pudessem elas reclamar
E algumas me puniriam pelo trato
Ingenuidade minha, certamente
Pensar que florescem flores em todos os jardins
Ou que não mora pó nos móveis antigos
Ou que o pó mente
Ingenuidade e castigo
Por respirar poesia e fumar
E ingénuo, fechar os olhos e cansar
Foto: Objectos do desejo - Ana Mokarzel (olhares.aeiou.pt)

OS FILMES DA MINHA VIDA (Uma mente brilhante - Ron Howard, 2001)

19 de Abril de 2009

Não é um grande amor que constrói poemas


Não é um grande amor que constrói poemas
Mas um grande poeta que faz nascer amores
Não é justo ser poeta sem dilemas
Não é justo ser poeta sem dores
É no seco e árido terreiro
Que nascem rosas e florescem espinhos
Um poeta rega as rosas
Mostra-lhes infinitos caminhos
Não é um grande amor que constrói poemas
Mas quem o ama 
Quem lhe afaga os espinhos e as flores
Mas um grande poeta pode fazer nascer amores
Foto: A ponte do poeta. - jorge roque (olhares.aeiou.pt)
 

16 de Abril de 2009

Conheci hoje uns lindos olhos à esquina do meu olhar


Conheci hoje uns lindos olhos à esquina do meu olhar
Surpreendida por um barco pronto a naufragar
Deixa a mão e leva os olhos
Surpreendida pelo mar
É de silêncio o olhar com que me matas
Com os olhos teus
Penso-me homem
Sinto-me criança
Só de olhar para esses olhos com os meus
Não sei se falam
Se fazem da solidão alimento
Sei que na cor desses olhos surpreendidos
Podem morar meus amores perdidos
Conheci hoje uns olhos lindos á esquina do meu olhar
Foto: Green eyes - RR (photo.net)

14 de Abril de 2009

Apelido: LUA


Aceitas que nas asas de um papagaio azul
Te ofereçam o mundo para iluminar
À margem de profecias corrompidas
Aceitas proteger o naufragar
És a parte feminina da noite
Serás suave 
A possuir o dia sem despedidas
Dizem que vivem em ti os poetas
Para olharem do céu a bola azul onde assentam os pés
Mas não a mente
E um poeta sente...
E o tempo atrás do tempo
Traz novidades nas asas de um papagaio azul
E cresces e minguas rumo ao sul
És crescente e minguante
Cheia e nova
Nem ele te é indiferente
Aparece apenas a medo de dia
E em segredo
Dizem que és pó mas és poesia
E apareces assim todas as noites
Nas asas de um papagaio de fantasia
Foto: Noite de pesca - Fernando José Mesquita dos Santos (olhares.aeiou.pt)

Nome: SOL


Entre o rio e o mar uma imensidão de luar
Serena a linha do horizonte deita a lua no seu colo
Quando o teu nome sol a vem beijar
E na confusão do saltitar circadiano
Passam os dias e as luas
Fica o engano
Condenadas a guardas pretorianas do infinito
As nuvens braços de algodão
Doce como a tua mão
Salgado como o mar chão
Pendente sobre mim a espada da vida
E o dilema de voar
Ou de agarrar o coração
Entre o rio e o mar uma imensidão de ser
E a loucura de poder

Foto: A abelha ao sol - Reynaldo Monteiro (olhares.aeiou.pt)

10 de Abril de 2009

AS LEIS


É boato que morri
Verdade que sobrevivi
Quando vi o teu sorriso nos meus olhos
E o teu andar no meu caminho
Quando olhei de frente e não vi
Quando virei a cara ao espinho
É verdade, morri
Um pouco por dentro
Um tanto por fora
Morri por viver
Vivi para te ver
Foto: black umbrella - Frederick Dunn (photo.net)

8 de Abril de 2009

A VIAGEM


Logo desaparece e se evapora no seu rio
Na clareira das suas ilusões
Num raio de luz do luar
Exercita serena o seu cio
Resulta existir e ser mulher
Ver no espelho a imagem
Comer um doce inteiro de colher
E ler um livro da viagem

Foto: Doce vida doce - Eduardo Alberto Utescher (olhares.aeiou.pt)

6 de Abril de 2009

PALAVRAS COM MÚSICA (Paula Fernandes - Chuva Chover)

IDEIAS OCAS

Era a tarde do dia e os olhos não abriam
Fechados, molhados, rasos de saudade
De longe, muito longe seguiam
O rasto luminoso da verdade

Era a tarde daquele dia, os olhos fechavam
A voz embargava palavras atrás de outras
Certas, eruditas demoravam
Em folhas alvas do vento rotas

Era a tarde mais entardecida do dia
De um dia sem tarde 
Um dia de tarde fugidia
Um dia de manhã e noite de verdade

Era um dia de tarde sem palavras
De vãs e loucas
Dia de tarde sem lavras
Tarde de um dia de ideias ocas

1 de Abril de 2009

SÃO DE ÁGUA AS VÉRTEBRAS E DE PEDRA AS LÁGRIMAS


Sei que é duro o ofício e grande o sacrifício

Não pestanejar quando olho o silêncio à minha volta

Quando oiço o que o canto das árvores diz

- Não fazes ninguém feliz

São de água as vértebras e de pedra as lágrimas

Despidos os ramos

Vestidas as lástimas

Sei que é duro o ofício

De nos mantermos à tona de água

Quando o mar nos puxa para baixo

E não podemos levantar a mão e dizer adeus

De termos que assumir o que somos

Em cais de nau naufragada

E somos nada

Um pouco de tudo

E tudo de nada


Foto: escrevo-me(te) - silviafonso (olhares.aeiou.pt)