30 de Março de 2009

a filosofia de um poema


Um poema é assim…
Algo que não se explica
Que brota dos poros
Que vive noite e dia
Que bebe à tarde água
Na fonte da Filosofia
Um exercício de dissidência
Do material da consciência
Um tambor que capta e não emite
Os sons da inteligência
Um poema não se lê à chegada
Mas no destino
É uma arte de ser
Uma pintura de pincel fino
Foto: Quando não te posso contemplar, contemplo os teus - J. PEDRO MARTINS (olhares.aeiou.pt)

24 de Março de 2009

era breve a noite e veloz o vento

Era já noite e sem que o mar ou o vento apagasse o luar
Ele sentia um aperto no peito
Cada vez que o corpo ensaiava danças de respirar
Só de pensar o que ela pensava
Ou de pensar o que ele pensava que ela pensava
Que confusão de pensar
De cada vez que ele pensava que ela pensava
Cansava a lua e as estrelas
E ficava a pensar se ela se cansava
De olhar as estrelas sem vê-las
Era breve a noite e veloz o vento

21 de Março de 2009

A MINHA PEQUENA POESIA (Dia Mundial da Poesia, 2009)


É caldo o ar que sinto
Não minto
Sou apenas um defeito
Uma gota no teu conceito
É poesia o que vendo
E um verso o que estou lendo
É defeito dos olhos
Ver aqui um poeta
Se nem uma lança
Pode fazer mais que uma seta
São só palavras com vida
Mas vida de quem as lê
É erro ver aqui
O que nem o poeta vê
É de todos este canto do meu caderno
Rabiscos e palavras
Palavras e riscos
Um delírio são eterno
Uma poesia pequena
De um poeta pequeno
Cuidador de palavras
Ressuscitador
De um poema sereno

Foto: poesia no muro - Lucia Caribé (olhares.aeiou.pt)

OS FILMES DA MINHA VIDA (La Vitta e bella - Roberto Benigni, 1997)

18 de Março de 2009

Espantalho das palavras


Era assim como se na folha alva
Morasse um espantalho das palavras
E na folha seguinte outro espantalho
E de folha para folha
De espantalho para espantalho
Voassem os pardais perdidos na mata
E as palavras perdidas na data
Era assim uma história sem Homem de lata
Ou leão triste ou companheiro
E brigassem os pardais e as palavras
Em que folha me deito
Ou que espantalho respeito
Foto: com o espantalho - Telmo Simões (olhares.aeiou.pt)

14 de Março de 2009

13 de Março de 2009

NESSE ESPAÇO DE RIO ONDE NADA

espacialmente oco o interior
da furtiva luz desmaiada
nesse espaço onde doce é a doçura
nesse espaço de rio onde nada
da furtiva luz desmaiada
a loucura rumo à foz da coisa
é de carne o meu sustento
é de tábua rasa
do navio, a loisa
da furtiva luz desmaiada
é espacial e especialmente oco o interior
de peixes e algas floridas
é escuro de breu o fundo
da furtiva luz desmaiada
é doce
é salgado
esse porto de mar vagabundo

PALAVRAS COM MÚSICA (Imortais - Mafalda Veiga)

10 de Março de 2009

A MÚSICA QUE SOBRA


Nem sei se entre a música que sobra

Fica alguma porta aberta

Ou se na melodia encoberta

Se rasga a folha do poema ou se dobra

Se a poesia me acena apenas de um vão de escada

Me mata sorrateira no gume da espada

Ou se espreita qual donzela quando me vou

Atrás da cortina de vidro da janela

Já não sei se foi ela que me encontrou

Ou se a descobri nua

Não sei se foi porque ela chorou

Quando passou à minha rua

Sei que foi delicado o meu gesto

Ajudar a poesia a ser maior

Só me pertence o braço infesto

De pretensioso conquistador

Nada mais que um gesto indolor

Nada mais que um beijo funesto


Foto: Reinventing the Cello II - Alexander Kharlamov (olhares.aeiou.pt)

6 de Março de 2009

QUE SÃO DOCES OS BRINQUEDOS


Um pouco, um pouquinho só acima da medida do silêncio
Roçam os cotovelos da noite para abraçar a matina
Um pouco, um pouquinho só abaixo da medida do silêncio
Despe-se o dia dessa capa escura, fina
É de brisa do mar o teu pouco vestido
Um pouco, um pouquinho só abaixo da tua loucura
Um pouco, um pouquinho só por trás dos meus olhos
E de algodão fino e cambraia quem te abraça a cintura
Será um pouco doce, um pouquinho só, a água do mar
Depois de nela navegar a tua doçura
Será miragem que navega ao largo um brinquedo só
Um pouco, um pouquinho, só
È só um pouco, um pouquinho só acima do som do silêncio
Que são doces os brinquedos
E para brincar, os doces
Um pouco, um pouquinho só de segredos
Um pouco, um pouquinho só abaixo da medida dos medo
s

Foto: Meninos do rio - José Luis Almeida Albuquerque (olhares.aeiou.pt)

3 de Março de 2009

PALAVRAS COM MÚSICA (Carolina - Caetano Veloso)

OLHO AZUL


No dia em que for grande
Hei-de publicar um livro
Com um olho azul na capa e na contracapa
Terá letras amarelas
E linhas verdes paralelas
Será a olho nú um livro diferente
Transparente
Será feito à mão
Escrito e desenhado no chão
Terá na lombada bordada
As asas de uma gaivota
E as garras de um leão
Será transparente, amarelo, verde
Um livro canção
Terá páginas de titânio
Eternas ao tempo
Será quadriculado
Espelho dos impulsos
Do que está dentro do crânio
Será de todas as cores que o leitor quiser
Mas será mesmo a sério
Um livro para ter e ler
Ou para esquecer e vender
Mas será um livro...
Foto: Sob a luz azul - Ramon de Assis (olhares.aeiou.pt)

1 de Março de 2009

SEM PALAVRAS

CANTA SERENO O ÓPIO EM MEUS OLHOS


Canta sereno o ópio em meus olhos
Quando para além de tudo alcanço os teus
Delira e alucina o meu pessimismo
Só com a dor de pensar
Quando os teus olhos encontrarem os meus
Sinto em excesso a angústia de ser
E a ansiedade de não poder
Odeio-me se não o fizer
Respirar o meu ar que tu
Deixar entrar em corpo nu
O mal que esse amor me fizer
Queria às vezes ter um sabor salgado
Dissolver-me na água do mar
E esperar deitado na praia
Gretado de sede e desejo
E esperar o doce no molhado do teu beijo
Ao mesmo tempo ser só no mundo
Ter tempo para respirar bem fundo
E resolver esta batalha entre a vida e a agonia
A tristeza e a folia
A realidade e a poesia
Cansa só de pensar
Que nunca te vou olhar ou falar
Que não lês o que escrevia
Emerge o ópio em meus olhos
Odeio-me se não o fizer
Respirar o meu ar que tu
Deixar entrar em corpo nu
O mal que esse amor me fizer
Foto. "Puff" - José d' Almeida & Maria Flores (olhares.aeiou.pt

PALAVRAS COM MÚSICA (Leave all the rest - Linkin Park)

PALAVRAS COM MÚSICA (Sei que sabes que sim - EZ Special)