31 de Janeiro de 2009

INSTRUMENTOS DO PENSAMENTO


Será a lógica a ciência do bem pensar da vida do momento, o instrumento do pensamento? Fosse a lógica a prática da teoria dos sentidos e diria que não há filosofia nos sentidos. Falar de algo sem saber o que é, como é! Será lógico que quem ame não saiba o que ama ou até o que é amar. Será lógico estruturar fórmulas de pensamento racional para coisas irracionais? Será ilógico contrariar as fórmulas e os argumentos sociais que contêm os sentimentos? É a nossa vida é formal ou material?

 

Se pensas é porque sabes que pensas

Pensas na vida e não no momento

Em coisas banais

De forma intrusiva ao pensamento

Será lógico que estando distante

Estejas ausente?

Ou que mesmo presente

Estejas indiferente?

Que quem ame fique cego

Metafísico

E mesmo em causa própria

Seja incapaz de ser causídico

Será lógico que não me respondes

Quando basta carregares num botão

Ou que a vontade nem comande a tua mão?

Foto: Oficina - Sirius (olhares.aeiou.pt)

28 de Janeiro de 2009

VERSO E REVERSO


Se eu fosse um verso

Seria com certeza um verso do inverso

Escrito de trás prá frente

Ou visto á lupa e á lente

Se eu fosse um verso

Teria que ter uma poesia para nadar

Uma frase para rimar

Um texto, um mar pra navegar

Se eu fosse um verso

Podia rimar com várias poesias

Uma nova todos os dias

Se eu fosse um verso

Só, apenas, um simples verso

Monossilábico, mesmo do inverso

Seria a só a palavra
Que a poesia do verso

Quisesse

Que fosse

Se eu fosse um verso seria um pássaro

Que faz das frases ramos

E das poesias enganos

Se eu fosse um verso

Seria eu verso

Mesmo do inverso

Seria meu

E nenhuma poesia reclamaria

É meu

Mas era se fosse um verso

Como não sou verso nem do inverso

Sou apenas o inverso do verso

Sou o reverso

Foto: Rodinhas1. - Ed Ferreira (olhares.aeiou.pt)

25 de Janeiro de 2009

O GIGANTE A NUVEM


Não sei se sabes que eu sei
Que és mais que planta e mar
Se sabes que as pedras escrevem versos
E as nuvens o inverso
Mas há diferenças no universo
Enquanto eu sei que tu sabes
Tu pensas que esqueço
Mas este poema é mais que nuvem ou pedra
Mais do que a cor ou dor
É apenas a teoria de quem sente
Quem imagina coisas loucas
E vê gigantes em coisas poucas
Foto: Pigmeu Gigante - Emerson Barbosa (olhares.aeiou.pt)

21 de Janeiro de 2009

FRUTAS E ESTRADAS


Haverá nas estradas que visitamos

Verdades e certezas absolutas

Certezas e sinais sobre o código

Sobre as pessoas todas iguais

Dispostas certinhas em bancadas de frutas

Será alto o marotear

Quando os sinais nos enganam

E as estradas findam seu passo

Será mentira a verdade

Ou vencerá o cansaço

Degraus altos têm estas estradas da vida

Assomam quando muda a realidade

Quando sentimos

Que as nossas mãos se aproximam dos joelhos

Quando a hora da estrada não é a nossa

Ou quando se parte o sinal do espelho

Ficamos cegos ao pôr-do-sol

Foto: Frutas II - Raul Cordeiro (olhares.aeiou.pt)

19 de Janeiro de 2009

SEM COMO NEM PORQUÊ


Ia escrever qualquer linha mas pensei

Será que alguém lê isto?

Que este não é um estilo já visto?

Será justo pensar

Que por detrás desta escrita

Estará um punhado de algodão

Que se desfaz com uma brisa

Que alguém escreve sem despir a camisa?

Será que o que oiço desse escriba que dá vida a palavras

São bolhas de ar a flutuar

Ou é ele mesmo um fanfarrão

Que faz viver o que abala o coração?

Dirá quem lê que é vaidoso

Que gosta de brincar

Que exagera nas figuras de desenha

Mas pensará o leitor no gozo

De quem vive a desenhar?

É mesmo homem, menino mimado

A quem o prazer gozado

Sem saber explicar

Sem como e sem porquê

Pode divertir e dar gozo a quem lê

Foto: Why U make me so mad?! - DIPE (olhares.aeiou.pt)

17 de Janeiro de 2009

O APESSOAMENTO DA ESCRITA



Vesti o que não quis, nem olhei
O que podia vestir não quis
Só depois pensei
Que ao vestir-me errei
"Quis tirar a máscara
Estava pegada à cara"*
Na crosta de uma chaga que não sara
Deitar fora a roupa não resulta
Nem trocar o corpo e a cara
Teria ainda que pagar multa
Por vestir o que não quis
Ou pelo menos porque o fiz

*Álvaro de Campos - Tabacaria
Foto: O poeta Pessoa - João Tavares da Silva (olhares.aeiou.pt)

16 de Janeiro de 2009

SIMPLICIDADE (sou simples)


Sou simples e vejo na tua imagem
Reflexos, luzes de uma viagem
E nos teus olhos, praias e mosteiros
Campos de besteiros
Defensores das flores da guerra
Espadachins nobres e vaidosos
No limiar da tua finisterra
Confesso, que esses olhos me matam
Me ferem os reflexos dos meus
Será que pode ser assim sangrento
Pode ser assim sedento
Um olhar escondido na esquina
Com o brilho do luar do teu?
Sou simples e mais nada
Nada me tirará de ti
Ainda que seja ilusão de adolescente
Daria anos, segundos e minutos de mim
Iria longe no campo de batalha
Ao longo e aos gritos da maralha

Foto: O Cavalo da Batalha - Nuno Alves Pereira (olhares.aeiou.pt)

UM POEMA EM LÍNGUA GESTUAL PORTUGUESA

... (e?)


E num relampâgo vi
Que tinhas corrido mundo
Que tinhas ido bem fundo
Nas histórias que li
Foto: Viagem a dois - Carla M Fernandes (olhares.aeiou.pt)

12 de Janeiro de 2009

POR ACASO OLHEI CÉUS VERMELHOS EM MENINO


Penteei o cabelo e olhei o céu

Nuvem branca de neve entre os arraiais

Sedentária, sexual, cigana

Absorvendo os meus sinais

Será aquele reflexo o meu?

Cresci indígena entre trigais

Por acaso olhei céus vermelhos em menino

Dancei e corri arraiais

Mas quis a graça

E quis a vida que passa

Que escrever para ti

Fosse meu rubro destino

Por acaso, mas só por acaso

Não tenho medo

Que um amor semente, flor e fruto

Deixe um dia de ser um segredo

Foto: Girl with bikini... - Ludgero Alexandre N. Ribeiro (olhares.aeiou.pt)

POEMA ANIMAL (imcompleto)


Ruge e canta
Senta e levanta
Corre e dança
Agarra e espanta
Ladra e foge
Morde e lambe
Mia e refoge
Gato que samba
Pia e muge
Ladra e bale
Relincha no auge
Serpente do vale
Berra e triça
Calhandra e rufa
Sibila roliça
Pavão de trufa

Foto: Pavão - Silvio Leossi (olhares.aeiou.pt)

9 de Janeiro de 2009

MIL VIDAS E MAIS UMA


Digo eu, que não sou matemático

Nem tal pratico

Que viver mil vidas

É pior do que viver apenas uma

Pode haver mil sonhos desfeitos em vez de um

Podes dormir mais de mil horas

E perder mais de mil dias numa vida

Podes ter mil formas e mil visões

E somando uma por dia

Podes em tristezas somar milhões

Pode ser que a matemática engane a razão

Que faça subtracções sem adição

Pode ser que valha a pena viver mil vidas

Mas seria triste, uma soma de tristezas

Ter que sair mil vezes

Ter que fazer mil despedidas

Foto: s/t - Pedro Li (olhares.aeiou.pt)

7 de Janeiro de 2009

é nos discursos mudos que se ordenam as baladas


às vezes, muitas, é nas palavras caladas
que nascem as madrugadas
é nos discursos mudos
que se ordenam as baladas
é nos olhos e não em nada
que se vêem os conteúdos
é na teia do sonhar acordado
que se olham os sonhos e as palavras
mesmo que não sejam ditas
ou mesmo malditas
às vezes é tudo ao contrário
às vezes é possível o poema
outras o silêncio apenas

Foto: ... entre quatro paredes de silêncio - Carla Salgueiro (olhares.aeiou.pt)

4 de Janeiro de 2009

MÁQUINA DO MUNDO


Será no fim do fim do século

Que esse amor verá luzes, estrelas e cometas

Quando do tempo não houver memórias ou sombra

E não puderes brandir a baioneta

Mesmo que o tempo acabe

Não acabará a história

E na traição da memória

Serás cinza, brasa e lume

Em profundo silêncio o teu ciúme

Vazia a moldura, ausente o lugar

E uma ligeira névoa sobre a memória e a história

Será só no fim do fim do século

Que virão as cores

Misturar os teus amores

Porque tais coisas não foram feitas para os teus dias

E…

Mesmo que olhes o céu e sorrias

Vale a pena esperar

Se não esperares pelo fim do fim do século

Será esse amor filho trémulo

De um amor fraco da máquina do mundo

Mais superficial que profundo

Foto: Máquina do tempo - Marcelino Teles (olhares.aeiou.pt)

1 de Janeiro de 2009

EM VEZ DE NEVE FLORES DE ANIS


é hoje que nada fica como dantes
que fico ás voltas nos caminhos
dando-lhes um norte e um espaço
para que caminhem sozinhos

é hoje que ofereço às nuvens alguns corantes
que pintem de azul os olhos cinzentos
e façam cair em vez de neve flores de anis
é hoje que faço as loucuras e colho os instantes
que te canso de comtemplação
que te faço aumentar a suspiração

é hoje que nada fica como dantes
é hoje que faço de conta
que me embala uma música leve 
tocada pelas ondas do mar
é hoje que a posso escutar ao luar
que me assalta a loucura e a razão
e lutam com as minhas lágrimas
rolando pelo chão

é hoje que não se apagam as estrelas
é hoje ainda que espero acordar de noite para vê-las
será hoje que mesmo por breves instantes
nada fica como dantes
Foto: *** - Pretty (www.photodom.com)