"água selvagem"
alguma vez te disseram
baixinho
que sabes a água selvagem
que és tu a criatura
que me embaraça
que me faz sentir rio
sem margem
alguma vez alguém te deu
o que te disse eu?
eternidades
pois é...
quanto a nostalgia te atravessa
longe vão os tempos de menino
apaixonado
sobreviveu ao tempo um homem
triste, pouco alegre
amargurado
atravessa-me de repente uma nostalgia
de mim e de ti
estranha mas doce
amarga e eterna
quanto a nostalgia te atravessa
longe vão os tempos de menino
apaixonado
sobreviveu ao tempo um homem
triste, pouco alegre
amargurado
atravessa-me de repente uma nostalgia
de mim e de ti
estranha mas doce
amarga e eterna
adulta, madura e esguia (ao Dia Mundial da Poesia) - Republicação
Sabes que não há tempo
Como o tempo em escrevia poesia
Em que a noite era dia
Sabes que não custa andar
Não há esquinas no tempo
Nem portas por descobrir
Escrever é deixar ir
A mão atrás da pena
É conjugar verbos
E rir
Sem os alcançar
É ver os pássaros voar
Reunidos em congresso
Quietinhos e atentos no ar
Sabes que não há tempo
Nesta poesia, na minha poesia
Como o tempo de rimar
Sabes que gosto cada vez mais
Da poesia que envelhece
Do verso que é verso
E parece
Sabes que não há tempo
Para crescer a poesia
Ela quer-se à nascença
Adulta, madura e esguia
Cuidado
Há um silêncio secreto no amor desprevenido
Descuidado e pouco sabido
Cuidado com as esquinas que cortam o caminho
E o tornam mais comprido
Cuidado com o animal desprevenido
Que nos assalta o coração
Cuidado com o que escondes na mão
Cuidado com um amor pétreo
Onde se vive Inês
Vivem os amores
E se morre Inês
Morrem as flores
Cuidado com o silêncio
Cuidado
Mil tons (Fora de tempo - Castelo de Vide - 08/03/2013)
Longe do sítio
Onde me sento e descanso
Perto de um ribeiro manso
Onde rebola o meu versejar
Eu encontrei
Uma pedra de mil tons
Essa pedra tem toques raros
Uns maus e outros bons
Peguei nela devagar
Atirei-a ao céu
Tão longe e tão alto
Como se ele fosse meu
E ela voou e riscou
No céu como um lápis
Um nome nasceu
Com as cores do arco-íris
É raro termos a sorte
De ser cor das cores do céu
De ver de perto
Um pequeno troféu
Erguer-se num mundo incerto
E usar o mesmo olhar
E usar o mesmo respirar
E a mesma pedra de mil tons
Para dar cor ao luar
E ela voou e riscou
No céu como um lápis
Um nome nasceu
Com as cores do arco-íris
A fuga do beijo (Fora de tempo - Castelo de Vide - 08/03/2013)
Em cima da mesa de entrada
Não há nada
Não há nada
Pus um beijo sossegado
Deitado
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caiba
Ninguém lhe tocou
Ninguém o viu à entrada
De uma boca tão calada
Um beijo é apenas um beijo
Sossegado e poupado
Deitado
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caiba
Ninguém lhe tocou
Ninguém o viu à entrada
De uma boca tão calada
Um beijo é apenas um beijo
Sossegado e poupado
Não há nada
A uma boca
Que não quer ser beijada
Não há nada
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caiba
A uma boca
Que não quer ser beijada
Não há nada
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caiba
Ninguém lhe tocou
Ninguém o viu à entrada
De uma boca tão calada
Ninguém o viu à entrada
De uma boca tão calada
Pus um beijo sossegado
Deitado
Deitado
Em cima da mesa de entrada
Não há nada
Não há nada
Que um beijo não abra
Não há nada
Que num beijo não caibaNão há nada
Ninguém lhe tocou
Ninguém o viu à entrada
De uma boca tão calada
todos os beijos
todos os beijos que há no mundo
que sei dar
que sei oferecer
cabem na tua boca
longe dela é seca a terra
longe dela é triste e oca
a luz dos teus olhos
é nulo o desejo
cabe e sai da minha
boca para a tua
simples
um beijo
Canções
Repete comigo
Se gostas
Diz bem alto
Que estes poemas são pássaros
Que te debicam o coração
E caem como folhas de outono
Na palma nua
Da tua mão
Olha lá
Cala-te e adora
As nuvens que tapam o sol
Esse tempo de primavera
Quente e mole
E diz bem alto
Canta em canção
Que estes poemas são pássaros
Que te debicam o coração
Nada na mão
Nada na mão
Nada na manga
Um folho na saia
Um laço na tanga
Nada no pensamento
Nada no corpo
Um peso nos ombros
No pescoço uma canga
És burro, não vês
És cego
Escolhes pelos olhos
Uma paisagem desajustada
Maior que o teu ego
Acorda
Põe-te atento
Que matérias leves
E almas desatentas
São leves
Leva-as o vento
Já começou 2013...
Melbourne - Austrália, 1 de Janeiro de 2013
Gostava de lá estar...
Quanto mais depressa começa 2013 mais depressa acaba.
BOM ANO PARA TODOS OS SEGUIDORES DESTE ESPAÇO
OBRIGADO
Um silêncio feito verso (Republicação)
Vagueio por florestas inacabadas e bato a várias portas de vários segredos
À porta do silêncio bato forte em voz alta e insisto com murros persistentes
E nas portas do espaço aberto, os meus olhos agitam-se para te falar, mas os períodos de calma roubam-te de mim, e em sussurros ensinam-me a tua língua entre dentes
Com a voz que nasce da liberdade recém-nascida, temo falar
Na minha pequena câmara da tranquilidade só falo com a voz do meu silêncio
Para que o meu silêncio, eloquentemente converse comigo
E não me consiga calar:
Pássaros brancos no mergulho oceânico, delicadamente
Um mar sem som e um céu mudo
Azul no azul fixado silenciosamente
Cor de céu de tom agudo
Identificado com silêncio ilimitado
Desajusto o ajustamento do universo
Num discurso bem guardado
De silêncio feito verso
Consciente e solitário, imortal e infinito
Reúno todas as coisas do meu coração
E parto à procura do silêncio não dito
Nos versos de uma silenciosa canção
combinações (republicação)
havemos de falar um dia destes
da chuva muda que chove dos teus olhos
ou da neve que seca do teu vestido
os folhos
havemos de falar
de como este frio seca as lágrimas
havemos de combinar
apagar as lástimas
e fazer um esquema
que explique
onde entro eu na tua poesia
ou cabes tu no meu poema
a geografia da amizade
![]() |
| Foto: Raul Cordeiro |
Era alto, bem alto o teu promontório
E do alto te puseste a mirar
E atiraste pedras a quem passava
E partiste cabeças
E calaste bocas
E provocaste mágoas loucas
Quebraste com as pedras,
a pontaria e a agilidade
Alguns pedaços
Da geografia da tua amizade
E se com as tuas lágrimas pedes desculpa
Não peças
Que das feridas que carrego
É tua a culpa porque
Quebraste com as pedras,
a pontaria e a agilidade
E quebraste também
a geografia da tua amizade
voltas
há histórias fantásticas
Adormeci hoje a pensar que acordava daqui a uns anos
Num apeadeiro nas crateras da Lua
Onde das estrelas caíam palavras
Que faziam um texto de uma frase nua
Onde, no Mar da Tranquilidade
As pessoas perdiam a idade
Onde não se criavam raízes
E podiam ser eternamente felizes
Onde por entre naves espaciais
Voavam borboletas e flores magistrais
Pássaros Fénix imortais
E aí esperava por ti
Da tua carreira regular de Vénus
Com escala breve por aqui
Fato espacial branco cru
Por cima de um corpo nu
Olhaste e vieste a mim
Onde os semáforos espaciais eram folhas de plátano
Que só mudavam de cor nas estações siderais
Onde o tempo era imponderável
Mas o solo pouco arável
E por isso as flores cresciam no ar sem ar
E não podiam parar a idade
Nem a força da gravidade
Foste breve no olhar mas lenta no respirar
Rarefeito o ar e o teu escutar
Tinhas pressa do espaço e da sua arte
Das velocidades de anos-luz
Dos cruzamentos com Marte
De um voo espacial nocturno
Com passagem por Saturno
Pressa a amores sempre fiéis
De tocares os seus anéis
Agora de saída após a tua partida
Contemplo essa bola azul
De senhora e eterna idade
Onde tudo é terreno e destino
Onde podia tocar-te sem esse fato espacial
Sem que levasses a mal
Onde a gravidade nos agarra à terra
Onde podemos ser pensamento
Mesmo triste
Mas onde a vida existe
É só ela mesmo responde
Quando a Lua se esconde
Falsidades (Republicação)
voa veloz a tua língua sobre o meu coração
ilumina-se a fluorescência do teu andar, talhado
afunda-se a lua no mar da paixão, diamante
rasga-se inteiro o bocado, pedaço da tua mão
olha-se de soslaio o corpo amante
escurece a sombra do meu braço na tua cintura
enrola-se na raiz dos teus ossos
escreve-se a minha idade numa pintura, espelho
de imagem reflexa, desarrumada, alimento vítreo do ego
espera na falsidade da imagem o aconchego
5 ANOS
Nota-se que este espaço já se entranhou de tal forma que este ano até me esqueci de assinalar, na data certa, o 5º Aniversário.
Foi no dia 18 de Julho.
São milhões de palavras e milhares de leitores de amigos que continuam a dar "vida" às "palavras".
Um abraço especial aos amigos que nos seguem e usam os textos nos seus espaços. É um orgulho para nós.
Esperamos continuar por aqui a verter e a alimentar ilusões.
Foi no dia 18 de Julho.
São milhões de palavras e milhares de leitores de amigos que continuam a dar "vida" às "palavras".
Um abraço especial aos amigos que nos seguem e usam os textos nos seus espaços. É um orgulho para nós.
Esperamos continuar por aqui a verter e a alimentar ilusões.
MUITO OBRIGADO
o esquema estúpido
Haverá coisa mais estúpida
Que querer uma dor que não se tem
E vestir para a esperar
O mais bonito vestido
E treinar os ais e os suspiros de amor
Como se fossem um destino
Um vento sentido
Haverá coisa mais estúpida
Que sofrer pelo que não se tem
E gozar a dor que quem não nos gosta
Haverá coisa mais estúpida que ser um idiota
Que defende sempre a dama errada
E vacilar diante de folhas que pedem poemas
Como se vacila quando se gosta
E não sente a dor
Haverá coisa mais estúpida
Que amar sempre á mesma hora
E ler sempre o mesmo poema
Haverá sempre uma palavra
Um esquema
poucas certezas
![]() |
| Foto: João Carvalho |
Tenho quase a certeza
Como se têm habitualmente as certezas
De que se fechasse os olhos
Todas as coisas
Se moveriam do seu lugar num secreto movimento
Por um instante
Por um momento
Como tenho a certeza
De que se fechar os meus pensamentos na minha mão
Eles se moverão
E saírão
E serão por um instante
Num momento
Poesia
As minhas pontes (Republicação)
Há no encanto das flores
Uma ponte de mim para mim
Uma garra geológica
Pouco lógica
Como se a poesia que escrevo
Viesse em monte
Em onda trágica
Tornar-me seu servo
E da ponte emergem dois fins
E dois princípios, e um meio
E um receio...
Férias! (que estou quase a ter) e Verão que não vou esquecer (Raquel Cordeiro)
O primeiro dia de férias
Não há como descrever
Tudo é mais calmo e simples
e a qualquer hora posso comer
Verão é diversão
É piscina
São festivais de verão
É passear o cão
Para quem o tem
Senão…
Azar meu bem
Está hot todo o dia
E mesmo quando há trovões
Há sempre parvalhões
Que vão para a piscina
Todo o dia
Com a Maria
A Maria são todas as raparigas
Que quando há trovões
Vão para a piscina com parvalhões
No Verão vou à praia
Vou nadar ou comer um gelado
Ou as duas coisas
Dá tempo para tudo
Quando se é sortudo e destinado
Sortudo e destinado
É aquele que pode sempre comer um gelado
Raquel Cordeiro
Poema Português (Raquel Cordeiro)
Quando as portas do castelo se abriram
Todas as princesas caíram
E já com o rabo no chão
Se ouviu um gritão
Era a rainha
Tinha descosido a bainha
E o rei como ficou?
Rebolou, rebolou e rebolou
Raquel Cordeiro
flores roxas
![]() |
| Foto: João Carvalho |
Não quero a serenidade
Mas há gestos que trazem no peito
O peso do mundo
E que tocam lugares desertos
Na forma justa medida
Da medida que é a vida
Não
Não quero números de circo
Ou trapézios verdes
Ou riscos
Quero apenas a angústia dos mortais
E rios de flores roxas
E outras que tais
Não quero estrelas
Nem sóis nem luas
Mas há gestos que trazem ao peito
O coração do mundo
Gestos que tocam fundo
Onde nascem peixes azuis
Onde eu nunca fui
Não quero números de magia
Ou cordas bambas
Ou risos
Ou sambas
Quero apenas a angústia dos mortais
E rios de flores roxas
E outras que tais
furtivo
ficaria feliz
se estivesses a sorrir
quando eu morresse
se eu me pudesse vingar assim
de toda a tristeza em mim
e vomitar a vida
de uma congestão avulsa
e se estes versos fossem lápide
de uma vida
de um lema
a que alguns chamam poema
seria vingativo
mas um pouco
diria
furtivo
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