Definições improváveis


Escuta poesia
Desculpa
Mas tens-me passado ao lado
Um dia destes amo-te
Como foi no passado
Serei teu poeta
Tua fantasia
Tua consciência 
Tua alegria
Teu frio 
Teu quente
Sim…
Um dia destes amo-te
Não te esqueço
Porque o passado
É a consciência do presente

CARL MENDES - CHEER UP GLOOM

Por ser português mesmo em inglês...
Gosto especialmente da Renault 4L.
Memories are memories...


Sem muita conversa

É agora um poema 
Sem muita conversa na minha manhã
Um pecado de devassa 
Sem olhar ou alma cristã


Quando te zangas comigo 
Essa voz de mel
Tem sabor a lodo
A tua língua é fel


Não me atingem nem de perto as tuas setas
Precisas saber o proibido
Que eu tenho tentado
E não tenho conseguido


É agora um poema 
Sem muita conversa na minha manhã
Um pecado de devassa 
Sem olhar ou alma cristã


Sem saber de cor as tuas iras
Olho as estrelas em filas lestas e pretas
Quando pensas que sabes, deliras
O que outros dizem são tretas


Não esqueças…


É agora um poema 
Sem muita conversa na minha manhã
Um pecado de devassa 
Sem olhar ou alma cristã


Quando te zangas comigo 
Essa voz de mel
Tem sabor a lodo
A tua língua é fel


Quando te zangas comigo 

O último pedido (ao novo ano)


Preciso do teu desenho, da tua projecção
Do teu perfil, das horas dos teus dias
Preciso do teu cheiro a chá de menta
Das rosas dos teus segundos da tua fantasia
Preciso que pintes os olhos de magenta
A primeira cor do universo
Que pintes dias, horas e segundos
E te deixes levar na poesia deste verso
Preciso que passes para te perder
Ou apenas para ter saudades tuas
Preciso que estejas ausente para te ver
Preciso que chegues para te esquecer

EGOSURFING VI (EGOGOOGLING) - A VIDA DAS PALAVRAS NOUTROS SÍTIOS

No Dia da Poesia de 2010


Compêndio do medo (letra de música)


O medo é a linha que separa
O teu mundo do meu
A minha existência é pouca e rara
O meu destino incompleto sem o teu


Sou apenas um homem simples
Traído pelas árvores e pelos pássaros
Parvo e louco de ciúmes
Em edifícios pouco claros


O medo é essa coisa absurda
De língua amarga e afiada
Faladora, tagarela e linguaruda
De garganta fria e cansada


O medo é a linha que separa
O teu mundo do meu
A minha existência é pouca e rara
O meu destino incompleto sem o teu

Outro Natal (outros Natais)




Somos construídos de pouca matéria e muita memória
De pouco presente e muita história
Deram-nos braços para abraçar
Beijos para beijar
Mãos para dar
E um berço de palha para adorar
Somos desde sempre fanáticos por estrelas
Por caminhos e preces
Pela esperança de um dia
Pela luz da poesia
Nascemos todos os anos no mesmo dia Natal
E morremos os outros dias, todos
Levantamos e baixamos os braços
Dormimos em silêncio
Pouco olhamos as estrelas
Esmorecemos aos poucos
Cavamos túmulos e escrevemos poemas
Apregoamos grandes lemas
Mas nem usamos os braços para dizer adeus
Nem bem nem mal
Esperamos quietinhos
Outro Natal

Naufrágio


A vida trouxe-me breve
Para este lado do teu mar
Por isso não consigo
É impossível
Sem ti naufragar
Escrevo nessa vela ao vento
As coisas do futuro
Guardo bem guardadas
As lembranças
Num local pouco seguro
Assim é meu coração
Aberto e imaturo
Ferido pelas tuas setas
Mole, doce e puro
A vida trouxe-me breve
Para este lado do teu mar
Por isso não consigo
É impossível
Sem ti naufragar

Poema suavezinho


OUVE
Vou dizer-te baixinho
Com todas as letras
Com jeitinho
Com suavidade
Devagar
Sem maldade
Respira fundo
Mas não morras incinerado
No álcool que bebes
Nem mates de uma vez
Todas as tuas sedes
Que eu quero dizer-te
Enquanto ainda ouves
Com todas as letras
Que se empinam à saída da minha boca
Que a vida é um desperdício
Quando damos tiros em alvos errados
Que seres assim é uma perda
E se continuares assim
...

Silêncio, por favor

Foto: Raul Cordeiro (Madeira, 2011)

Silêncio, por favor
Calem-se todos
Mesmo os que calados estão
Se apenas há silêncio onde não estou
Vou correr para lá
Onde não estão
Onde não estou
Onde não vão

ursinhos de peluche

Gastamos tanto a pensar
Que até encontramos lobos
Onde há ursos de peluche
Esbanjamos instantes
Na água do duche
Como se a manhã não existisse
E fosse apenas um momento distante
Não há outros momentos
Nem outras horas
Nem outra energia
Nem momentos aflitos
E é agora a prova, diplomacia
Gerar consensos
Não conflitos

O poema do poeta (republicação)


O poeta tinha uma caneta, uma folha e um livro
O poeta tinha uma folha do livro
O poeta tinha uma caneta que escrevia
O poeta tinha um livro que só lia de dia
O poeta tinha uma caneta que escrevia numa folha
Que era do livro que só lia de dia
E o livro tinha uma folha que só se lia
Quando o poeta queria
Era a folha de um livro escrito por uma caneta
Que quando era de noite simplesmente não escrevia
E nas sintaxes que compunha com a caneta
Nas suas mãos o poeta o seu livro sentia
E nas linhas com que a folha ficava
Lia-se o texto que o poeta ensaiava
O poeta tinha uma caneta, uma folha e um livro
O poeta tinha uma folha do livro
E eram as linhas das folhas do livro
Que faziam o poeta vivo
O poeta tinha uma caneta que escrevia
Um livro que o poeta só escrevia de dia

peitos e iscas


É justo e direito
Que cada um traga no peito
A isca que merece
Não é justo
Não faz sentido
Que o meu sol respire a tua voz 
Se esgueire pela porta
E fique eu sem saber
de quem é o beijo que escuto no ouvido?

Há apenas uma imensidão de lagos transparentes




Entre querer e poder
Há apenas uma imensidão de lagos transparentes
De silêncios e verdades
De hesitações 
Entre querer e poder há um tempo
Que se fechou em armários
Entre fotografias e verdades
Entre querer e poder há uma lei
Inexorável
A lei do tempo
De papéis velhos sem cores nem rei
Dos restos do momento
Entre querer e poder 
Há uma imensidão de lagos transparentes
E um lamento

Foto: João Carvalho (A caminho de Fátima, Setembro de 2011)

Há histórias fantásticas (republicação)


Adormeci hoje a pensar que acordava daqui a uns anos
Num apeadeiro nas crateras da Lua
Onde das estrelas caíam palavras
Que faziam um texto de uma frase nua
Onde, no Mar da Tranquilidade
As pessoas perdiam a idade
Onde não se criavam raízes
E podiam ser eternamente felizes
Onde por entre naves espaciais
Voavam borboletas e flores magistrais
Pássaros Fénix imortais
E aí esperava por ti
Da tua carreira regular de Vénus
Com escala breve por aqui
Fato espacial branco cru
Por cima de um corpo nu
Olhaste e vieste a mim
Onde os semáforos espaciais eram folhas de plátano
Que só mudavam de cor nas estações siderais
Onde o tempo era imponderável
Mas o solo pouco arável
E por isso as flores cresciam no ar sem ar
E não podiam parar a idade
Nem a força da gravidade
Foste breve no olhar mas lenta no respirar
Rarefeito o ar e o teu escutar
Tinhas pressa do espaço e da sua arte
Das velocidades de anos-luz
Dos cruzamentos com Marte
De um voo espacial nocturno
Com passagem por Saturno
Pressa a amores sempre fiéis
De tocares os seus anéis
Agora de saída após a tua partida
Contemplo essa bola azul
De senhora e eterna idade
Onde tudo é terreno e destino
Onde podia tocar-te sem esse fato espacial
Sem que levasses a mal
Onde a gravidade nos agarra à terra
Onde podemos ser pensamento
Mesmo triste
Mas onde a vida existe
É só ela mesmo responde
Quando a Lua se esconde

amor encarnado



No dia do decreto de ofício
Em que me calhar em rifa ser votado ao sacrifício
Ser comido por bichos não!
Quero três coisas
Para além de todas as outras
Ser mandado ao vento suão
Um terço, no montado de sobro mais fresco que houver
Na seara se não houver
Outro terço, ou um pouco menos
Nas águas das ribeiras que se entrecruzam
E o terço que falta, ou um pouco mais
Se puder ser
Se houver dia
No corredor do lado esquerdo
Onde jogou Chalana ou Di Maria






Vaidade



Do lado de fora de um homem feito
Nasce uma seta reta no peito
Uma capa negra
E um desejo violento
De devorar os sonhos à mesa
Num repasto doce e lento
Toda a forma
Toda a vida
Tem uma morte 
Que vai crescendo a seu lado
E exibindo a sua vaidade
A vida passa
É um defeito que passa
Passa com a idade

Complicado?



Estava para aqui a pensar
Que gosto que gostes
De pensar em gostar
Estava para aqui a gostar
Que penso que pensas
De gostar de pensar
Que nada se gosta sem pensar
Nem se pensa sem gostar
Que gostar é tão elaborado
Que merece ser pensado
E gostar tão simples
Que pensar em gostar
Nem merece ser pensado
Complicado?

adulta, madura, esguia


Sabes que não há tempo
Como o tempo em escrevia poesia
Em que a noite era dia
Sabes que não custa andar
Não há esquinas no tempo
Nem portas por descobrir
Escrever é deixar ir
A mão atrás da pena
É conjugar verbos
E rir
Sem os alcançar
É ver os pássaros voar
Reunidos em congresso
Quietinhos e atentos no ar
Sabes que não há tempo
Nesta poesia, na minha poesia
Como o tempo de rimar
Sabes que gosto cada vez mais
Da poesia que envelhece
Do verso que é verso
E parece
Sabes que não há tempo
Para crescer a poesia
Ela quer-se à nascença
Adulta, madura e esguia

ESCRITOS & ESCRITORES - AVIS 2011 - 3ª EDIÇÃO


Este ano, ainda estou para descobrir como e porquê, alguém da ACA - Amigos do Concelho de Avis, Associação Cultural, resolveu descobrir este espaço das palavras e convidar-me para a 3ª Edição do "Escritos & Escritores" a decorrer a 21, 22 e 23 de Outubro de 2011.
Já me comunicaram que contam comigo no dia 22 de Outubro a partir das 10h em Avis.
Fiquei também a saber quem são alguns dos convidados: Maria Teresa Horta, João Miguel TavaresAfonso Cruz, Pedro Vieira, Sara Rodi, Leandro Vale, ...
Nem sei o que dizer ou pensar. 
Não esperava mesmo esta dimensão mas espero usufruir do prazer do momento.
Darei mais notícias em breve.
Ah... E claro... Estão todos convidados.





A jaula

Foto: Raul Cordeiro

Linho nos ombros
Corpo em escombros
Feitiço nos olhos
Perto de um tombo
No quarto despido
Paredes vazias
Brancas anémicas
Disfarça a parede
Um roto biombo
É a alma que me olha
Esfarrapada
Parte sua
Num corpo de carne enjaulada

Mudança de estação


Desliga o botão e apaga a noite
Limpa os pés
Limpa o tapete
Dá-lhe um açoite
Deixa sair o verão
Deixa mudar a estação
Não cantes agora
Que acordas os pássaros
Não olhes agora
Que acordas a lua
Grita agora
Mas muda apenas o ângulo dos lábios
Que gritos certos
Tornam-se na estação certa
Gritos sábios

Sua Majestade

Sua majestade
Passou um dia os seus olhos pelos súbditos
E do alto dos seus olhos
Olhou-te sem te olhar
Porque tu não és um tu
És apenas e só o suave fulgor de um habitar
Um sonho inicial
Um olho verde em tom floral amendoal
Sua majestade exigiu respeito e deferência
Com os olhos e o pescoço
Uma breve reverência
Porque tu não és um tu
Mas apenas um esboço
Um pedaço de carne em cima de um osso
Sua majestade
Adivinhou a jogada
Viu a festa na corte
Viu-te vestir por engano
Em vez da pele de lobo
Os guizos de bobo
Sua majestade
Mandou-te que sonhasses
Mas majestade à parte
Não viu que chorasses

Sai e salta

Sai e salta
Ouve
Sai
Salta de cima da minha poesia
Que ela fraca
Não aguenta
Tanta melancolia


O olho que me olha

Foto: Raul Cordeiro
É de cristal fino a voz
E o olho que me olha
Branca a camisa alagada
Das lágrimas de verão
Que brandem no chão
O cheiro a terra molhada
É de cristal o grito
Temerário
São de cristal os gemidos
E de chão
O cenário
São fiados na roca
Mordidos
Na boca os sentidos
Sim
Foi a nós que nos vimos
E sem olhar nos despedimos